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A pirâmide da consciência atemporal – Sonhos, Jung e Psicologia Transpessoal

Lázaro Freire
9 de setembro de 2016

Além da questão de corpos de manifestação distintos sonharem sonhos também diferentes, entendo que uma teoria transpessoal dos sonhos precisaria multiplicar também todas essas possibilidades pelas variáveis do “tempo-espaço” em relação ao tema metaforizado pelo trabalho do sonho; o que, em meu modelo, tem ligações diretas com o inconsciente pessoal e coletivo, complexos e arquétipos, sugerindo um modelo para a consciência e sonhos no qual tempo-espaço sejam apenas mais uma de suas dimensões.

A experiência clínica me mostra que sonhos tendem a transcender, ainda que ligeiramente, o tempo-espaço e nossas noções mais comumente aceitas de lógica, conhecimento, individualidade ou memória. Projeção astral e fenômenos paranormais poderiam certamente ser uma explicação para casos particulares dessa constatação (e dentre meu público naturalmente tenho muito campo de estudo para isso), mas ainda assim não contemplam o todo das possibilidades: há excessões importantes, as quais, ainda que raras, questionam todo o modelo científico, psicológico e espiritualista atual.

A observação de casos sugere, como esperado, que as maiores verdades de nosso tempo não passem de um paradigma atual – ou “mito”, no melhor do sentido Campbel-junguiano do termo. Comprovada pela história da humanidade, essa lógica simples não poupa, é claro, nossa visão do dito “espiritual”, por mais que a minha me seja cara – e até mesmo indispensável – no momento atual. Ou seja, temos modelos úteis limitados à visão particular do observador, e que se aplica bem a maioria dos casos práticos em um contexto limitado. Mas que, ainda assim convida a busca de um modelo mais completo.

A visão piramidal 3D que proponho tem se mostrado um modelo simples e eficientemente integrador, na medida do possível, tanto a casos clínicos de interpretação de sonhos quanto a visões filosóficas e teóricas sobre a consciência, tempo, espaço e inconsciente, individuais ou coletivos.

O conceito já é familiar a quem frequenta meus cursos e palestras, não tem relações diretas com a de Maslow (que na verdade, é um triângulo), e esboçarei pela primeira vez por escrito alguns de seus conceitos – o que implica em limitações. No caso dos sonhos, além de serem produzidos por corpos de manifestação distintos, como dito na primeira parte deste esboço,
parece haver também vários fatos e tempos geradores do que se percebe do ponto que chamo de “o alto da pirâmide”.

A pirâmide 3D da consciência atemporal tem retas individuais-temporais da base, inconsciente coletivo no meio e o “um” no ápice. O modelo permite diversas sub-projeções de pequenas pirâmides menores a partir de uma observador em sonho ou estado alterado. Quanto mais elevado o ponto, mais atemporal a visão, entretanto, mais coletiva também. Se compreendido, o modelo explica facilmente por, exemplo, a presença frequente de sonhos com eventos do dia seguinte, mas a raridade e imprecisão de profecias futuras detalhadas; assim como traz uma visão dos sonhos comuns entre pessoas (retas) próximas, mas não a onisciência de toda a humanidade.

Alguns psicóticos podem, a partir de sua projeção piramidal, acharem-se tão deuses quanto o ponto maior, o que talvez seja em parte verdadeiro. Há outras implicações também harmonizando teorias hoje atribuidas ao pensamento mágico, especialmente se consideramos as contribuições de Jung no estudo da função prospectiva e na ocorrência futura de fatos concretos de tradução simbólica há muito anunciadas.

Além dos anos de prática clínica transpessoal, unindo justamente a visão espiritualista à psicanalítica, de meu embasamento junguiano anterior e à minha formação em transpsicanálise, ressalto que minha amostragem do modelo
é particularmente representativa por eu há anos acompanhar relatos, devido a ser facilitador do maior grupo mundial de relatos de projeção e espiritualiade cotidinana (7000 membros atuais, 17000 membros históricos, 11 anos, 1000000 mensagens), bem como da maior comunidade sobre interpretação de sonhos e sincronicidades (60.000 membros atuais, estimativa de 100.000 históricos, 3 anos). Assim, não se trata de uma “teoria” ou filosofia pessoal favorita, mas a melhor síntese de casos reais, os quais não raro constestaram meus próprios credos pessoais.

O que gostaria de colocar em consideração a partir daí, e admitindo como linguagem comum as *possibilidades* e teorias transpessoais, psicanalíticas e espiritualistas de maior consenso atual, é que um modelo piramidal aplicado ao fator gerador do trabalho de sonhos, estes parecem buscar inspiração, dentre outras possibilidades:

  • – nos complexos da infância e seus simbolismos,
  • – nos conteúdos associáveis a traumas, repressões ou suas sublimações,
  • – nas compensações de fatores psíquicos, através de “inversões” que, sem intenção de juizo moral, reequilibre a balança psíquica (ex: sonhos felizes dos deprimidos, violentos dos pacíficos, pessoas sem prazer sonhando com orgias ou banquetes, ciumentos com traição, híper-protetores com morte ou perda do ser amado, ex-dependentes químicos com seu vício, reprimidos ou abstênios com situações sexuais, etc)
  • – de fatos metaforizados a partir do dia anterior,
  • – de temas comuns universais (nudez, dentes, sexo, carro, voar, quedas, fazer uma prova, perseguição) como metáfora da condução de vida atual (sentido existencial, individuação, etc),
  • – no inconsciente coletivo,
  • – em associações arquetípicas universais (mesmo que, como citado por Jung, em mitos e variações aparentemente desconhecidos pelo sonhador) mas ainda que certas causas abaixo demandem uma ciência acausal difícil de demonstrar ou reproduzir senão pela observação, e outras adentrem, na falta de teoria melhor, explicações que hoje se encontram no terreno dos credos pessoais,

 

Também verifico ocorrer  relatos de sonhos derivados:

  • – de fatos cotidianos do dia SEGUINTE (!), em geral sem maior importância (a não ser simbólica, se interpretado);
  • – do que orientalistas chamam de registros akáshicos (o que pode, em parte, ser uma forma de ver o inconsciente coletivo, arquétipos ou alguma memória coletiva ou “de espécie” já especulada por algumas visões acadêmicas);
  • – de fatos projetivos, astrais ou oriundos de alguma realidade transcendente;
  • – da intervenção direta de alguma consciência extra-física maior, no mínimo transcendente ao que conhecemos como “eu”, ou talvez coletiva;
  • – de uma possível vida passada (não necessariamente do sonhador);
  • – de dias futuros que terão grande significado ao longo da vida (morte de parente, tragédia, fim de relação), ainda que o conteúdo “previsto” analisável nem seja sempre o fato principal do dia “em negrito” na existência do sonhador, mas não raro deslocado para algum evento menor (ex clínico real: sonho com frentista do posto de gasolina no dia futuro em que morreria um tio de meu paciente. O sonho falava sobre “energia” e “combustão”).

Considere-se todas essas possibilidades em conjunto com a visão coletiva e atemporal da consciência propiciada pela pirâmide, aliados aos já citados sonhos diferenciados pelos vários corpos de manifestação, e concluimos que no mínimo é equivocado descartar a atribuição de conteúdos simbólicos a qualquer instância da percepção sensorial, especialmente a inconciente; além de inviabilizar a eficiência generalizadora de qualquer “dicionário” de sonhos e interpretações.

Uma exploração mais detalhada do modelo leva também, fatalmente, a questionamentos sobre a natureza do simbólico e do real, bem como do que forma a consciência, mas essas questões fatalmente implicam em um adentramento filosófico, metafísico ou mesmo teológico que extrapola em muito os objetivos deste primeiro esboço.

Lembro, porém, de um aposto de Jung no último volume de suas “Cartas”, em que cuidadosamente anunciava exatamente isso: a compreensão do modelo em que os sonhos parecem ocorrer nos levaria a conclusões sobre a realidade (e sua contrução) um tanto difíceis de serem aceitas, além de incomodamente próximas dos estudos oriundos de algumas das mais milenares filosofias monistas orientais.

Onde termina a vida consciente e começa a simbólica, ou o contrário? Não poderia ser a “espiritualidade no cotidiano”, em alguma instância, a integração harmônica do inconsciente no “aqui-agora”? E pelo mesmo raciocínio, não poderia ser a lucidez meditativa, projetiva ou intuitiva uma presença mais consciencialmente estruturada dentro dos limites do inconsciente? Nesta visão, não poderiam ser os sonhos lúcidos, as projeções da consciência, a percepção da vida simbólica, a tradução psicanalítica e a observação das sincronicidades, todas elas, faces de uma mesma ferramenta de individuação ou, como citam os espiritualistas, “evolução” da manifestação consciencial? Sonho ou projeção?

Como sempre digo, não faz tanta diferença para o ponto de vista simbólico. Nem tampouco para a aplicação das mensagens apreendidas em um contexto do que alguns podem ver como integração da espiritualidade no cotidiano, mudança existencial, progrsso evolutivo ou trabalho psíquico de individuação.

O simbolismo do inconsciente (ou do mundo espiritual, se preferir) está presente até mesmo nas sincronicidades da vigília, a qual supostamente ocorrem em um mundo “sólido” e pragmático. Mas, como lembra Jung, mesmo a pequeníssima ocorrência de fatos que desafiam a lógica do tempo-espaço, certamente já percebidos por todos pelo menos uma vez (através de estados alterados da consciência, fatos inexplicáveis isolados, coincidências significativas irreproduzíveis ou mesmo por algum sonho premonitório relativo a fato de menor importância no dia seguinte), já deveria nos levar a questionar se a “continuidade objetiva” com a qual enxergamos nosso mundo “material” pode mesmo ser uma regra geral.

Uma vez que até mesmo a vida compacta e aparentemente contínua que levamos na vigília neurótica, em um mundo plasmado a partir da percepção do consciente pelos sentidos, mostra-se influenciável pela vida simbólica e psíquica do inconsciente; seria por demais surpreendente – para não dizer completamente descartável – que justamente os fatos ditos projetivos e astrais, ocorridos em um mundo etéreo ou espiritual (por definição muito mais maleável e coletivo, plasmado a partir do inconsciente), fossem isentos de qualquer simbolismo ou interpretação.

A vida simbólica, me parece, é como a consciência: indissociável de qualquer corpo ou plano de manifestação.

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Lázaro Freire

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